Eu fui criança por muito tempo e fui uma criança feliz. Aproveitei o máximo que pude pois desconfiava que o mundo ia se tornar bem mais estressante do que as complicadas provas de matemática da quinta série… e eu estava certa!
Sou do tempo do slogan: “Não esqueça a minha Caloi”. E eu ligava para o Bozo todos os dias, mas ele nunca me atendeu. Este foi um dos traumas que carreguei por anos. Tínhamos um telefone cinza daqueles com disco mesmo e com um fio comprido que me permitia levar o telefone da cozinha até a sala pra ficar em frente à tv e eu acreditava que mais dia ou menos dia o Bozo ia falar comigo…
Nada que algum tempo de terapia não resolvesse, hoje eu entendo melhor como é que as empresas de telefonia funcionam e sei que é absolutamente normal não conseguir falar ou até mesmo “se conectar” devido a forma como as coisas funcionam ou não (como diria Caetano Veloso).
Eu tive tanta coisa bacana da época, e tive ainda uma base sólida, uma educação que acredito ter cumprido os objetivos a que se destinou.
Hoje eu tenho sim uma saudade imensa, mas é uma saudade gostosa. Não é uma vontade de que as coisas fossem daquele jeito até porque a vida não é algo estático. Tudo está em constante movimento e o que se mostra novo também me envolve e me completa, me ensina e me ajuda a seguir tentando sempre ser uma pessoa melhor. Mas a saudade tem aqui um espaço e de repente surgem rostos, pessoas e momentos. Meus pensamentos são tomados por pessoas que foram super importantes e me fizeram o que sou e que não estão mais aqui. Não estão e nunca mais estarão mas aquilo que vivemos estará comigo enquanto eu viver.
O tempo passou… e todas as manhãs tenho a oportunidade de escrever uma nova página da minha história. Sigo a caminhar, ainda sou aquela criança que ligava para o Bozo, e ainda quero me tornar uma pessoa melhor a cada dia, ainda tenho um mundo novo a conhecer, muita coisa pela frente e a vontade ou talvez um grande sonho: Fazer com que os meus sejam mais felizes do que se eu não estivesse na vida deles…